Contents
O LUTO QUE NÃO É SÓ SEU: QUANDO A DOR DE UMA FAMÍLIA ATRAVESSA GERAÇÕES
O inconsciente coletivo familiar, as perdas que permanecem em silêncio e a Travessiologia do Luto na perspectiva da Psicologia Marquesiana
Por José Roberto Marques (JRM)
Artigo científico, literário, filosófico e epistemológico | Psicologia Marquesiana | Travessiologia do Luto | Novembro de 2026
Há famílias que choram seus mortos. Outras aprendem a não falar deles. E existem aquelas em que alguém continua sofrendo por uma perda que aconteceu muito antes do seu nascimento.
O que acontece quando uma família não consegue elaborar suas perdas?
Nem todo luto começa com uma morte que testemunhamos. Algumas vezes, ele começa com uma história que nunca nos contaram, com uma fotografia retirada da parede, com um nome que ninguém pronuncia, com uma tristeza que aparece todos os anos na mesma época e cuja origem já não sabemos explicar. Há famílias em que os mortos continuam presentes nas conversas. Em outras, permanecem nos silêncios. E existem famílias nas quais determinadas ausências se tornam tão profundamente incorporadas à vida cotidiana que ninguém mais percebe o quanto influenciam as relações entre os vivos.
Imagine uma mulher que cresceu ouvindo da mãe que não deveria demonstrar fraqueza. Quando se torna adulta, descobre que sua avó havia perdido dois filhos ainda pequenos. Depois dessas mortes, a avó raramente chorava diante de outras pessoas. Dizia que precisava ser forte, cuidar da casa e continuar vivendo. Sua filha cresceu aprendendo que sofrer em silêncio era uma virtude. Décadas depois, a neta repete a mesma postura diante de suas próprias perdas.
A dor da avó não foi literalmente transferida como uma substância invisível. Entretanto, determinada maneira de responder ao sofrimento atravessou três gerações por meio de comportamentos, exemplos, crenças e formas de relacionamento.
É precisamente nesse território que desejo aprofundar uma dimensão da Travessiologia do Luto: a compreensão de que o ser humano não atravessa suas perdas apenas com a própria consciência, mas também com os significados de vida, morte, amor e separação que aprendeu dentro de sua história familiar.
O luto é uma experiência pessoal, mas raramente é uma experiência exclusivamente individual.
Quando alguém morre, toda uma organização afetiva pode ser modificada. Uma mãe deixa de ser mãe de um filho vivo, embora continue sendo mãe em sua identidade e memória. Um irmão torna-se filho único na convivência cotidiana. Um marido passa a viver sem a companheira com quem dividia decisões, responsabilidades e projetos. Uma criança pode assumir silenciosamente a função de confortar adultos que já não conseguem oferecer a segurança de antes.
A morte retira uma presença, mas também reorganiza o significado das presenças que permanecem.
É possível que uma família inteira continue vivendo e, ainda assim, alguma parte de sua história permaneça emocionalmente interrompida.
O inconsciente coletivo familiar: entre Jung, a memória e a herança emocional
Para compreender essa experiência, precisamos começar com uma distinção epistemológica importante.
Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo para descrever uma dimensão da psique que, em sua teoria, não se originaria exclusivamente da experiência individual, mas envolveria estruturas arquetípicas compartilhadas pela humanidade. Figuras como a mãe, o herói, a sombra e os grandes temas da vida e da morte participariam dessas formas simbólicas de organização da experiência.
Entretanto, quando utilizamos a expressão inconsciente coletivo familiar, não estamos empregando exatamente o conceito original de Jung. Estamos propondo uma aproximação interpretativa entre a psicologia analítica, a memória familiar, os padrões emocionais aprendidos e a perspectiva sistêmica das relações humanas.
A existência de um inconsciente familiar autônomo, capaz de armazenar e transmitir diretamente experiências de pessoas falecidas, não constitui um fato cientificamente demonstrado. O que a pesquisa permite investigar são processos observáveis de transmissão entre gerações, incluindo narrativas, modelos de apego, comunicação, comportamentos aprendidos, experiências traumáticas e reorganizações familiares.
A diferença não diminui a potência filosófica da reflexão. Ao contrário, protege sua legitimidade.
Na Psicologia Marquesiana, proponho utilizar o inconsciente coletivo familiar como uma construção conceitual capaz de representar o conjunto de significados, padrões e histórias emocionais que influenciam os membros de uma família, mesmo quando eles não reconhecem conscientemente suas origens.
É como se cada família escrevesse um livro ao longo das gerações. Algumas páginas são lidas em voz alta. Outras são cuidadosamente escondidas. Algumas histórias são repetidas até se transformarem em verdades absolutas. E há capítulos inteiros que permanecem fechados, embora continuem influenciando a maneira como os descendentes interpretam o mundo.
A pergunta fundamental não é apenas o que aconteceu com nossos antepassados.
É também: o que aprendemos a sentir, esconder, temer ou acreditar porque determinadas coisas aconteceram antes de nós?
Quando o silêncio sobre a morte se transforma numa linguagem familiar
Conheci, ao longo da minha experiência com desenvolvimento humano e relações familiares, uma questão recorrente: pessoas que conseguem narrar com detalhes acontecimentos profissionais, conquistas materiais e conflitos cotidianos, mas encontram enorme dificuldade para falar sobre suas perdas.
Não é raro que o silêncio seja apresentado como uma forma de proteção.
A mãe evita falar sobre o pai falecido porque não quer entristecer os filhos. Os filhos evitam perguntar porque não querem ver a mãe chorando. Os avós guardam fotografias porque acreditam que recordar provocará sofrimento. Aos poucos, todos se esforçam para proteger uns aos outros, mas acabam construindo uma convivência na qual ninguém sabe se possui permissão para expressar a própria saudade.
O amor permanece. A comunicação desaparece.
Existe uma diferença profunda entre respeitar o silêncio de alguém e estabelecer o silêncio como uma regra da família.
O primeiro pode representar acolhimento. O segundo pode transformar a dor numa experiência solitária.
Essa percepção encontra respaldo na literatura científica sobre luto familiar. Em junho de 2026, uma revisão sistemática publicada na revista Death Studies, conduzida por Donna Levin e colaboradores, reuniu 29 estudos sobre a relação entre dinâmica familiar e respostas ao luto. Entre os temas identificados estavam comunicação, coesão, influência dos cuidadores sobre a adaptação das crianças, reorganização de papéis e influência cultural.
Isso significa que precisamos abandonar uma concepção excessivamente isolada do sofrimento.
Não basta perguntar como uma pessoa está vivendo o luto. Precisamos compreender também o ambiente relacional dentro do qual ela tenta elaborar sua perda.
Uma criança que percebe a tristeza dos adultos pode começar a esconder seus sentimentos para não aumentar o sofrimento familiar. Um adolescente pode interpretar a falta de conversa como sinal de que suas perguntas são inadequadas. Um homem pode continuar cumprindo todas as suas responsabilidades enquanto experimenta uma solidão que jamais verbalizou.
A dor que não encontra palavras nem sempre desaparece.
Algumas vezes, ela passa a organizar comportamentos.
As lealdades invisíveis: quando continuar vivendo parece abandonar quem morreu
Uma das experiências mais delicadas do luto acontece quando uma pessoa começa a melhorar emocionalmente e, em vez de sentir alívio, experimenta culpa.
Uma mulher perde o marido depois de trinta anos de casamento. Passado algum tempo, conhece alguém com quem consegue conversar, rir e imaginar possibilidades de companhia. Entretanto, quando percebe que está feliz, sente como se estivesse cometendo uma traição.
Um filho perde o pai e, anos depois, alcança uma realização profissional que ambos desejavam. Durante a comemoração, sente tristeza porque o pai não está presente. Em seguida, surge a culpa por conseguir celebrar uma vida que o pai já não pode acompanhar.
Uma mãe que perdeu um filho pode interpretar a própria alegria como uma forma de afastamento da memória dele.
Nessas circunstâncias, a dor pode assumir a aparência de fidelidade.
É possível compreender algumas dessas experiências por meio da ideia de lealdades familiares, utilizada em diferentes abordagens sistêmicas como uma ferramenta de leitura das obrigações, identificações e expectativas que atravessam os vínculos.
Contudo, não devemos presumir que exista uma lealdade inconsciente em todos os casos, nem transformar essa interpretação numa explicação universal.
A questão que desejo apresentar é filosófica e profundamente humana.
Em que momento começamos a acreditar que continuar sofrendo é a melhor maneira de continuar amando?
Talvez algumas pessoas não temam apenas esquecer quem morreu. Temam também que sua felicidade seja interpretada, pelos outros ou por si mesmas, como prova de que aquele amor não era suficientemente grande.
E então permanecem emocionalmente presas a uma exigência impossível: demonstrar fidelidade à memória por meio da continuidade da dor.
Na Travessiologia do Luto, proponho chamar essa possibilidade de conflito entre pertencimento e continuidade.
A pessoa deseja voltar a viver, mas teme que a própria reconstrução represente uma ruptura com sua história afetiva.
A elaboração desse conflito pode começar com uma pergunta:
Se a minha tristeza não fosse a única prova do meu amor, de que outras maneiras eu poderia honrar quem partiu?
Não existe uma resposta universal. Para alguns, será preservar memórias. Para outros, manter tradições. Para outros, simplesmente permitir que a vida continue.
O amor não precisa ser transformado numa sentença.
O luto dos ancestrais e a construção da identidade
Há uma dimensão do luto que considero especialmente importante para a Psicologia Marquesiana: o relacionamento entre memória familiar e identidade.
Nenhum ser humano nasce conhecendo a história completa da própria família. Descobrimos nossa origem por fragmentos. Ouvimos histórias sobre avós, parentes distantes, guerras, migrações, separações, mortes, reencontros e acontecimentos que marcaram nossos antepassados.
Essas narrativas ajudam a construir explicações sobre quem somos e de onde viemos.
Em algumas famílias, a morte de um ancestral transforma-se num marco organizador de toda a história. As pessoas passam a dividir o tempo entre aquilo que aconteceu antes e depois da perda.
Antes da morte do pai, a família era unida.
Depois da morte da mãe, ninguém mais se encontrou.
Quando aquele filho morreu, tudo mudou.
Essas frases não apenas descrevem acontecimentos. Também podem estabelecer interpretações coletivas que influenciam a maneira como as gerações seguintes compreendem suas relações.
Os trabalhos de Froma Walsh e Monica McGoldrick oferecem uma contribuição importante nesse campo. As autoras analisaram o luto a partir do ciclo de vida familiar, considerando as repercussões imediatas e duradouras das perdas nas redes multigeracionais de relacionamento.
A morte de um membro modifica a família de maneiras que dependem da fase da vida, das circunstâncias da perda, da qualidade dos vínculos e dos recursos disponíveis.
Na Travessiologia, proponho ampliar essa reflexão com o conceito de memória afetiva transgeracional do luto.
Trata-se de uma formulação autoral para descrever como acontecimentos de perda podem permanecer relevantes por meio das histórias, crenças, rituais e padrões de relacionamento transmitidos entre gerações.
Não é uma memória biológica comprovadamente herdada do acontecimento original. É uma possibilidade de transmissão psicológica, social e cultural de seus significados.
Uma família pode transmitir a ideia de que amar significa sofrer. Outra pode ensinar que perder alguém exige abandonar imediatamente todas as manifestações de tristeza. Outra pode cultivar rituais nos quais a saudade encontra espaço para conviver com celebrações e pertencimento.
O acontecimento original pode ser semelhante. As consequências narrativas e relacionais podem ser profundamente diferentes.
Por isso, investigar a história familiar não significa procurar culpados no passado.
Significa reconhecer que algumas das nossas interpretações mais íntimas talvez tenham sido aprendidas antes mesmo de termos consciência de que existiam outras possibilidades.
A criança que aprende a carregar o sofrimento dos adultos
Uma criança não precisa compreender intelectualmente a morte para perceber que sua família mudou.
Ela reconhece alterações no tom de voz, na disponibilidade emocional dos cuidadores, nas rotinas e nas expressões de afeto. Pode perceber que determinados assuntos provocam choro ou irritação. Pode começar a se comportar de maneira excessivamente responsável, acreditando que precisa proteger os adultos.
Em algumas famílias, depois de uma morte, os papéis se reorganizam de forma temporária e necessária. Em outras, uma criança pode assumir responsabilidades emocionais incompatíveis com sua fase de desenvolvimento.
O problema não está em permitir que crianças participem da vida familiar e expressem solidariedade. Está em transformar a criança, explícita ou implicitamente, na principal responsável pela estabilidade emocional de um adulto.
Na linguagem da Psicologia Marquesiana, podemos investigar como essas experiências se relacionam com a formação de crenças sobre amor, segurança, responsabilidade e pertencimento.
Uma criança que aprende que não pode chorar porque a mãe já sofre demais pode crescer acreditando que suas necessidades emocionais constituem um peso para as pessoas que ama.
Mas é fundamental evitar interpretações deterministas. Nenhuma experiência isolada define obrigatoriamente o futuro psicológico de alguém.
Histórias emocionais influenciam. Não determinam destinos.
Essa distinção representa um princípio importante para qualquer abordagem comprometida com a consciência e a autonomia humana.
O luto familiar e as nove Dores da Alma
A experiência da perda também permite uma reflexão sobre as nove Dores da Alma da Psicologia Marquesiana.
A morte de alguém significativo pode se relacionar a sentimentos de Rejeição e Abandono, sobretudo quando a pessoa interpreta a ausência como uma experiência de desamparo. A Traição pode aparecer simbolicamente na sensação de que a vida rompeu uma promessa de continuidade. A Injustiça pode emergir diante de uma morte prematura. A Humilhação pode manifestar-se na vergonha de precisar de apoio, enquanto o Fracasso pode surgir na crença de que seria possível ter evitado aquilo que aconteceu.
Em histórias marcadas por Abusos, a vulnerabilidade provocada pelo luto pode reativar lembranças e experiências anteriores. A Desconexão de si mesmo pode aparecer quando a pessoa deixa de reconhecer seus desejos, sua identidade e suas necessidades depois da perda. E a Falta de sentido da vida pode tornar-se particularmente intensa quando o relacionamento perdido organizava grande parte dos projetos existenciais.
Essas conexões não significam que todo enlutado apresente as nove dores, tampouco representam categorias diagnósticas reconhecidas pela psicologia clínica.
Seu valor, na formulação marquesiana, está em oferecer perguntas investigativas sobre a experiência subjetiva do sofrimento.
O que exatamente essa ausência despertou em mim?
Qual parte da minha história está sendo lembrada quando sinto esta dor?
Estou sofrendo apenas pelo acontecimento presente ou também pela maneira como aprendi a interpretar perdas e separações?
A consciência pode ampliar nossa compreensão da dor quando nos permite distinguir o acontecimento de todos os significados que construímos ao redor dele.
A epistemologia da Travessiologia: não confundir o símbolo com a prova
Uma teoria preocupada com o sofrimento humano precisa reconhecer os próprios limites.
A linguagem do inconsciente coletivo familiar possui grande valor simbólico. Ela nos convida a observar a continuidade das histórias e a influência dos vínculos na constituição da identidade. Entretanto, um conceito interpretativo não se transforma automaticamente em realidade científica demonstrada.
Na perspectiva epistemológica, precisamos diferenciar a experiência vivida, a hipótese que utilizamos para compreendê-la e as evidências capazes de sustentar essa hipótese.
Quando alguém afirma sentir uma tristeza semelhante à de uma avó que nunca conheceu, podemos acolher a experiência sem concluir que houve transmissão direta de uma emoção ancestral. Podemos investigar narrativas familiares, aprendizagens, contextos e identificações, mantendo abertura para explicações alternativas.
Esse cuidado também vale para o trabalho com constelações familiares, memórias e abordagens transgeracionais. Experiências subjetivas intensas podem produzir reflexões significativas, mas não comprovam, por si mesmas, a existência de mecanismos inconscientes hereditários ou a resolução clínica de transtornos.
A força de uma abordagem não precisa nascer da pretensão de explicar tudo.
Ela pode nascer da qualidade das perguntas que permite formular.
Na Travessiologia do Luto, considero essencial sustentar três compromissos: a liberdade da investigação filosófica, a responsabilidade diante das evidências científicas e o respeito à singularidade de quem sofre.
Nenhuma hipótese sobre uma família deve ser utilizada para impor memórias, fabricar culpados ou determinar o significado da experiência de uma pessoa.
A consciência não pode ser construída pela substituição de uma prisão emocional por outra prisão interpretativa.
O amor depois da morte: a reconstrução do vínculo e do sentido
Durante muito tempo, algumas interpretações do luto enfatizaram a necessidade de desligamento emocional da pessoa falecida. As pesquisas contemporâneas passaram a explorar também a possibilidade de continuidade simbólica dos vínculos.
O psicólogo Robert Neimeyer desenvolveu contribuições importantes para a compreensão da reconstrução de significado após perdas significativas. Em seus estudos, a morte pode abalar profundamente as narrativas pelas quais compreendemos nossa identidade, nossos relacionamentos e o mundo.
Uma revisão sistemática publicada em 2024, que examinou 79 estudos sobre vínculos continuados, identificou experiências tanto de conforto quanto de sofrimento. Isso reforça que preservar uma ligação simbólica com quem morreu não é automaticamente saudável ou prejudicial. Seu significado depende de diversos fatores individuais e contextuais.
Para a Travessiologia, essa compreensão oferece um caminho especialmente relevante.
A travessia não precisa terminar no esquecimento.
Pode envolver a construção de uma relação diferente com a memória.
Uma filha pode reconhecer a presença simbólica do pai nos valores que aprendeu com ele. Um homem pode encontrar consolo ao preparar a comida que sua mãe fazia. Uma família pode decidir voltar a celebrar uma data importante sem exigir que todos reprimam a saudade.
O vínculo transforma-se porque a realidade mudou.
E essa transformação não precisa representar uma diminuição do amor.
A quarta dimensão do luto: o pertencimento familiar
A partir dessas reflexões, proponho acrescentar à Travessiologia do Luto uma dimensão de investigação que denomino Travessia do Pertencimento Familiar.
Essa dimensão não constitui um estágio obrigatório, mas um campo de compreensão sobre a maneira como cada pessoa reorganiza sua relação com os vivos, os mortos e a própria história.
Ela se fundamenta em quatro movimentos de consciência.
O primeiro consiste em reconhecer a perda real, distinguindo o acontecimento dos significados construídos ao longo das gerações. O segundo busca compreender as narrativas familiares que influenciam a expressão do sofrimento, identificando aquilo que foi aprendido, silenciado ou repetido. O terceiro convida à diferenciação emocional, permitindo que a pessoa respeite sua família sem precisar reproduzir todas as suas formas de sofrer. O quarto procura integrar a memória à continuidade da vida, preservando o pertencimento sem transformar a dor numa obrigação de fidelidade.
Imagine o que significa, para uma mulher, descobrir que pode honrar a história da mãe sem repetir sua solidão.
Imagine o que representa, para um homem, compreender que pode amar profundamente seu pai falecido sem precisar abandonar os próprios sonhos.
Imagine o que acontece quando uma família percebe que seus membros não precisam sentir saudade da mesma maneira para que o amor de todos seja reconhecido.
Talvez uma das maiores conquistas da consciência seja compreender que pertencer não significa repetir.
Podemos fazer parte de uma história e, ao mesmo tempo, escolher maneiras diferentes de continuá-la.
A Travessiologia do Luto e a liberdade de continuar vivendo
Quando observo as diferentes manifestações do luto, desde o choque e a negação até a culpa, a solidão, a reorganização e a esperança, percebo que não estamos diante de uma estrada única. Estamos diante de um território humano no qual a memória, a identidade, os vínculos e o sentido se encontram.
Algumas pessoas atravessam esse território acompanhadas. Outras percorrem longos períodos de silêncio. Algumas encontram conforto na espiritualidade. Outras precisam reconstruir suas crenças. Algumas descobrem novas possibilidades de vida. Outras necessitam de ajuda especializada para lidar com um sofrimento que se tornou persistente e incapacitante.
Não existe uma maneira universal de viver a saudade.
Entretanto, existe uma possibilidade que considero central na Travessiologia: desenvolver uma relação mais consciente com a própria história, sem transformar essa história numa sentença irrevogável.
Você pode amar seus antepassados sem herdar todas as suas formas de sofrer.
Pode preservar a memória dos seus mortos sem abandonar a experiência de estar vivo.
Pode reconhecer as dores da sua família sem assumir a responsabilidade de repará-las sozinho.
Pode respeitar o passado sem oferecer a ele o direito de decidir integralmente o seu futuro.
E pode, sobretudo, compreender que nenhuma perda precisa ser justificada por um aprendizado para merecer acolhimento.
Há mortes que continuarão parecendo injustas. Há despedidas que jamais produzirão uma explicação satisfatória. Há perguntas que permanecerão sem respostas.
A maturidade da consciência não consiste em encontrar sentido obrigatório para todas as tragédias.
Consiste também em aprender a conviver com aquilo que não conseguimos explicar, sem desistir inteiramente da possibilidade de viver.
Conclusão: talvez a maior homenagem aos nossos mortos seja não abandonar os vivos
Uma família não é constituída apenas pelas pessoas que estão presentes.
Ela também é feita de lembranças, ausências, histórias interrompidas, fotografias envelhecidas, nomes repetidos, gestos herdados e afetos que continuam sendo transmitidos mesmo depois da morte.
Mas a história familiar não está encerrada.
Enquanto houver vida, haverá possibilidades de construir novas formas de relacionamento com o passado.
Talvez nossos antepassados tenham aprendido a sofrer em silêncio porque não conheceram outras maneiras. Talvez nossos pais tenham escondido suas lágrimas porque acreditavam que demonstrar fragilidade era perigoso. Talvez tenhamos crescido confundindo força com endurecimento e fidelidade com sofrimento.
Podemos reconhecer essas histórias com respeito, sem transformá-las em destinos inevitáveis.
É nesse ponto que a Travessiologia do Luto encontra sua dimensão mais profundamente existencial.
Não se trata de esquecer os mortos. Tampouco de substituir a saudade por uma felicidade artificial. Trata-se de compreender que a memória pode continuar fazendo parte de nós sem exigir que a nossa existência permaneça paralisada.
A vida que recebemos não precisa ser vivida como uma dívida interminável com aqueles que partiram.
Ela pode ser vivida como uma oportunidade de continuar uma história que, apesar de todas as perdas, ainda possui páginas por escrever.
E, talvez, quando uma pessoa encontra condições de voltar a amar, construir, celebrar e pertencer, não esteja se afastando de seus ancestrais.
Talvez esteja simplesmente oferecendo à sua história familiar uma possibilidade que outras gerações não conseguiram experimentar.
A possibilidade de recordar sem permanecer aprisionada.
De amar sem transformar o sofrimento numa obrigação.
De reconhecer a morte sem renunciar à vida.
Porque a consciência que amadurece diante do luto não pergunta apenas quem nós perdemos.
Pergunta também:
Quantas partes de nós deixamos de viver tentando permanecer fiéis às dores daqueles que vieram antes?
E que novas possibilidades poderiam nascer se compreendêssemos que honrar nossa família não significa repetir indefinidamente seu sofrimento?
Talvez a travessia mais profunda seja essa.
Descobrir que podemos carregar a história de quem amamos sem precisar carregar, para sempre, o mesmo peso.
Perguntas frequentes
O que é luto transgeracional?
É uma expressão utilizada para discutir como perdas ocorridas em gerações anteriores podem influenciar descendentes por meio de histórias, silêncios, aprendizagens emocionais, relações familiares e práticas culturais. Não pressupõe uma transmissão sobrenatural ou direta de lembranças.
O inconsciente coletivo familiar é uma teoria científica comprovada?
Não como entidade psíquica familiar autônoma. O inconsciente coletivo é um conceito da psicologia analítica de Jung. Já os processos de transmissão familiar de comportamentos, crenças e experiências emocionais podem ser estudados empiricamente.
Como a Travessiologia do Luto se relaciona com a Psicologia Marquesiana?
Na proposta conceitual de JRM, a Travessiologia investiga a experiência da perda por meio da consciência, da história emocional, dos vínculos, da identidade e da reconstrução de sentido, incluindo sua dimensão familiar e transgeracional.
É necessário esquecer quem morreu para superar o luto?
Não. Estudos sobre vínculos continuados indicam que é possível manter uma relação simbólica com a pessoa falecida. O efeito dessa continuidade varia entre indivíduos e depende de como o vínculo participa da adaptação à perda.

