Antes de aprender a sentir, a humanidade aprendeu a explicar. Aprendeu a nomear as estrelas antes de compreender o próprio medo. Aprendeu a medir o tempo antes de escutar a própria angústia.
Aprendeu a construir deuses, impérios, teorias e máquinas antes de aprender a habitar o que se passava dentro de si.
Contents
O analfabetismo interno da civilização
A história humana é, em grande parte, a história de um extraordinário desenvolvimento externo acompanhado por um profundo analfabetismo interno.
Pensamos.
Raciocinamos.
Planejamos.
Dominamos a matéria.
Mas, durante séculos, não soubemos o que fazer com aquilo que sentíamos. As emoções surgiam rápidas, intensas, silenciosas, e não encontravam linguagem.
Quando não encontravam linguagem, tornavam-se ameaça. E tudo aquilo que a civilização não compreende, ela tenta controlar, reprimir ou negar.
Quando sentir virou erro
Assim, o medo foi tratado como fraqueza.
A raiva, como perigo.
A tristeza, como falha.
A culpa, como condenação.
A vergonha, como identidade.
A ansiedade, como defeito.
E a alegria, como algo raro demais para ser levado a sério.
A supremacia da razão
Ao longo do tempo, criamos sistemas inteiros para explicar o mundo, mas não criamos um sistema para escutar o ser humano.
A razão foi elevada ao trono. A emoção foi empurrada para os bastidores.
E, sem perceber, cometemos um erro silencioso que moldaria toda a civilização:
passamos a acreditar que pensar era mais importante do que sentir.
O erro que moldou a civilização
Esse erro não foi pequeno. Ele se infiltrou na ciência, na educação, na religião, na política, nas relações e na forma como cada indivíduo passou a se enxergar.
Quando a emoção deixou de ser compreendida como linguagem da vida, ela passou a ser tratada como ruído. Quando passou a ser tratada como ruído, deixou de ser escutada.
E aquilo que não é escutado não desaparece.
Apenas encontra outras formas de se manifestar.
Da emoção ao destino
Foi assim que a emoção não compreendida se transformou em dor.
A dor não compreendida, em sofrimento.
O sofrimento não compreendido, em identidade.
E a identidade ferida, em destino repetido.
O equívoco histórico sobre o sofrimento
Durante muito tempo, acreditamos que o sofrimento humano era um problema moral, depois um problema psicológico, depois um problema químico.
Medicamos, rotulamos, normalizamos.
Mas raramente perguntamos:
O que essa emoção está tentando dizer?
Que parte da vida ela está tentando proteger?
Que verdade ela carrega antes da razão conseguir formular?
Talvez porque, no fundo, temêssemos a resposta.
Pois compreender as emoções não exige apenas conhecimento.
Exige coragem.
Coragem para admitir que não somos governados apenas pelo que pensamos, mas, principalmente, pelo que sentimos, mesmo quando não percebemos.
A emoção como fundamento da razão
Este artigo nasce de uma constatação simples e radical:
A emoção não é o oposto da razão. Ela é o solo invisível onde toda razão nasce.
Antes de qualquer pensamento consciente, algo em nós já avaliou, sentiu, reagiu, preparou o corpo, orientou a atenção.
Antes de qualquer decisão, algo em nós já sabia, ainda sem palavras, se aquilo era ameaça, perda, injustiça, sentido ou integração.
As emoções sempre estiveram lá.
O que faltou foi uma linguagem que as honrasse.
O propósito deste artigo
Esse artigo nasce para ensinar a compreender o que as emoções sempre estiveram tentando proteger.
Ele não nasce para substituir a ciência, mas para integrá-la.
Não nasce para negar a razão, mas para reposicioná-la.
Não nasce para criar mais um método, mas para organizar um campo de consciência.
Este trabalho parte de uma pergunta que atravessa todas as épocas:
E se aquilo que sempre tratamos como fraqueza for, na verdade, a forma mais antiga de inteligência da vida?
Um convite à consciência
Ao longo destas palavras, você não encontrará apenas explicações.
Encontrará espelhos.
Espelhos que revelam por que você sente o que sente.
Por que repete o que repete.
Porque, mesmo querendo mudar, muitas vezes retorna ao mesmo ponto.
E, sobretudo, encontrará algo que a humanidade demorou séculos para aprender:
Quando as emoções são compreendidas,
a consciência se expande.
E quando a consciência se expande,
a vida deixa de ser sobrevivência e se torna escolha.
Este artigo é um convite.
Não para sentir menos.
Mas para sentir com consciência.
Aqui começa uma travessia.
JRM

