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O PODER DA PARTICIPAÇÃO: POR QUE NÃO DEVEMOS SUBESTIMAR NOSSO VOTO?
Por José Roberto Marques
Quando deixamos de reconhecer a importância da nossa contribuição, corremos o risco de abandonar uma oportunidade antes mesmo de aproveitá-la. Será que essa postura aparece somente diante das urnas ou também influencia outras escolhas que fazemos ao longo da vida?
“Não adianta votar, porque nada vai mudar.” Essa frase aparece com frequência nas conversas sobre política. Talvez você já a tenha escutado de alguém próximo. Talvez, em algum momento, também tenha considerado essa possibilidade. Afinal, diante de um eleitorado superior a 158 milhões de pessoas, a escolha de um único cidadão parece representar uma parcela quase imperceptível. Entretanto, existe uma diferença importante entre reconhecer que não podemos determinar sozinhos o resultado de uma eleição e concluir que nossa participação não serve para nada. São ideias distintas, embora muitas vezes sejam tratadas como se fossem equivalentes.
No primeiro turno das eleições de 2026, aproximadamente 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. O percentual de abstenção chegou a 21,08% do eleitorado. Esses números merecem atenção, mas precisam ser interpretados com responsabilidade. Afinal, a ausência pode acontecer por motivos diversos, como problemas de saúde, viagens, dificuldades de transporte, compromissos inesperados ou outras situações particulares. Não seria correto atribuir todas essas faltas a uma única explicação. Ainda assim, podemos refletir sobre uma questão relevante: o que leva uma pessoa a acreditar que sua participação não tem importância suficiente para justificar o esforço de comparecer?
Em diferentes momentos da vida, observamos um comportamento recorrente: diante de desafios muito grandes, algumas pessoas passam a considerar irrelevante qualquer contribuição individual. Quanto maior parece o obstáculo, menor se torna a confiança na própria capacidade de colaborar. A consequência pode ser a desistência antes mesmo da primeira tentativa. Esse padrão não está restrito à política. Ele aparece nos relacionamentos, nas empresas, na educação dos filhos, nos projetos pessoais e em muitas outras experiências cotidianas. A pessoa observa a dimensão do problema, compara-a com os próprios recursos e conclui que não vale a pena fazer nada. Entretanto, esquece que grandes resultados frequentemente dependem de inúmeras ações que, quando analisadas separadamente, parecem pequenas.
Na psicologia política, a expressão eficácia política percebida descreve a percepção que alguém possui sobre sua capacidade de contribuir para o processo político. Essa ideia não pressupõe que cada cidadão tenha poder para decidir individualmente uma eleição ou obrigar os representantes a atender todas as suas expectativas. O conceito está relacionado ao entendimento de que a participação pode integrar e influenciar, dentro de determinados limites, a construção das decisões coletivas. Quando essa percepção diminui, a disposição para participar também pode ser prejudicada. A pessoa não precisa rejeitar a democracia para se afastar das urnas. Pode simplesmente acreditar que sua presença será irrelevante.
Essa forma de pensar merece atenção porque se repete em diferentes contextos. Alguém deseja melhorar a vida profissional, mas conclui que um curso não será suficiente para transformar sua carreira e acaba adiando os estudos. Outra pessoa pretende cuidar melhor da saúde, porém considera inúteis as pequenas mudanças diante de todos os hábitos que precisaria modificar. Há também quem evite conversar com familiares porque não consegue resolver sozinho os conflitos existentes. Na política, o raciocínio pode seguir o mesmo caminho: se não posso solucionar os problemas do país, por que deveria participar de uma eleição? Em todas essas situações, a pessoa estabelece uma condição excessiva para começar: acredita que uma iniciativa só merece ser realizada quando pode produzir uma transformação completa.
O problema dessa lógica é que ela transforma a ausência de garantias em justificativa para a inércia. Como não podemos controlar todos os acontecimentos, passamos a agir como se nenhuma atitude estivesse sob nosso alcance. Entretanto, existem diferenças entre aquilo que podemos decidir, aquilo que conseguimos influenciar e aquilo que permanece fora do nosso controle. Não escolhemos todos os resultados, mas podemos escolher como agir diante das circunstâncias. Podemos desenvolver habilidades, rever comportamentos, iniciar conversas, estabelecer prioridades e participar de decisões coletivas. O amadurecimento envolve reconhecer os próprios limites sem utilizá-los como motivo para abandonar todas as possibilidades de ação.
No contexto eleitoral, essa distinção é especialmente importante. Nenhum voto individual determina necessariamente o resultado de uma disputa. Uma eleição, por sua própria natureza, depende da reunião de escolhas realizadas por muitos cidadãos. Portanto, reconhecer que um eleitor não controla sozinho o resultado é apenas constatar uma realidade. O equívoco surge quando essa constatação é utilizada para afirmar que o voto individual não possui valor. Se as decisões coletivas são construídas pela participação de muitas pessoas, cada escolha faz parte do processo, ainda que não seja possível prever isoladamente seu efeito sobre o resultado final.
Também precisamos compreender que a desistência nem sempre representa desinteresse. Em muitos casos, ela pode ser consequência de experiências frustrantes. Uma pessoa acompanha a política, pesquisa candidatos, participa de eleições e alimenta expectativas de mudança. Com o passar do tempo, porém, pode se sentir decepcionada com promessas não cumpridas, decisões de representantes ou problemas que continuam sem solução. Depois de acumular frustrações, afastar-se pode parecer uma maneira de evitar novos desgastes. A pessoa passa a pensar que, se deixar de acompanhar os acontecimentos, sofrerá menos; se não criar expectativas, terá menos motivos para se decepcionar; se não participar, não precisará enfrentar a possibilidade de fazer uma escolha que posteriormente considere equivocada.
Essa reação é compreensível do ponto de vista emocional. Quando uma experiência provoca sofrimento, é natural que procuremos maneiras de reduzir a possibilidade de repeti-la. Entretanto, vale perguntar se o afastamento representa uma decisão realmente consciente ou se está sendo conduzido pela decepção. Quando você deixa de participar porque perdeu a confiança, está exercendo sua liberdade de escolha ou permitindo que uma experiência negativa determine suas próximas atitudes? Essa reflexão pode parecer desconfortável, mas é importante porque nem sempre percebemos quando o medo de uma nova frustração começa a limitar nossas decisões.
O mesmo acontece fora da política. Depois de uma relação difícil, alguém pode evitar novos vínculos. Após uma tentativa profissional malsucedida, outra pessoa pode deixar de buscar oportunidades. Diante de dificuldades familiares, há quem prefira o silêncio à possibilidade de uma conversa complicada. Em todos esses casos, a pessoa pode interpretar a desistência como uma escolha definitiva, quando ela também pode representar uma tentativa de se proteger da sensação de impotência. Reconhecer esse mecanismo não significa ignorar experiências negativas, mas compreender que o passado não precisa determinar automaticamente todas as atitudes futuras.
Por isso, a reflexão sobre o voto deve permanecer apartidária. O propósito não é recomendar um candidato, defender uma ideologia ou convencer as pessoas a reproduzir a opinião de terceiros. O que importa é estimular uma participação consciente e responsável. Isso exige pesquisar propostas, consultar diferentes fontes, verificar informações, questionar discursos e considerar argumentos que contrariem nossas próprias convicções. Conversar com pessoas que pensam de maneira diferente também pode ampliar nossa compreensão sobre os problemas coletivos. A democracia não depende de cidadãos que concordam em tudo, mas de pessoas capazes de formar suas próprias opiniões e participar das decisões sem abrir mão do pensamento crítico.
A participação consciente não significa acreditar que todos os candidatos são igualmente preparados ou que todas as alternativas disponíveis correspondem às nossas expectativas. Tampouco exige entusiasmo permanente com o cenário político. É possível estar insatisfeito com as opções apresentadas e, mesmo assim, avaliar cuidadosamente as consequências de cada escolha. O importante é não permitir que a frustração substitua a reflexão ou que a impressão de impotência impeça qualquer iniciativa. Uma decisão tomada depois de examinar informações é diferente de uma ausência motivada pela convicção antecipada de que nada poderá mudar.
Existe ainda uma informação prática importante para quem não compareceu ao primeiro turno: é possível votar no segundo, desde que a situação eleitoral esteja regular. A Justiça Eleitoral considera cada turno uma eleição independente. Isso significa que a ausência anterior não impede automaticamente a participação na votação seguinte. Além da orientação eleitoral, essa possibilidade nos oferece uma reflexão sobre o comportamento humano. Uma escolha passada não precisa funcionar como uma sentença permanente. Quem deixou de participar anteriormente pode reconsiderar sua atitude. Quem abandonou um projeto pode retomá-lo. Quem sustentava determinada opinião pode revê-la diante de novos argumentos e informações.
Na vida, frequentemente tratamos decisões anteriores como se elas estabelecessem um caminho sem retorno. Depois de desistir uma vez, sentimos dificuldade para recomeçar. Depois de cometer um erro, podemos acreditar que não temos mais condições de agir de maneira diferente. Mas a possibilidade de reconsiderar escolhas faz parte do desenvolvimento pessoal. Reconhecer que poderíamos ter agido de outra maneira não precisa resultar em culpa permanente. Pode servir como ponto de partida para uma decisão mais consciente no presente.
Talvez, portanto, a principal questão para este domingo não seja apenas escolher um nome na urna. Talvez seja refletir sobre a responsabilidade que cada pessoa deseja assumir diante das decisões que afetam a coletividade. Você não precisa acreditar que seu voto resolverá todos os problemas brasileiros. Não precisa considerar perfeito o sistema político ou sentir confiança absoluta em todas as alternativas disponíveis. Basta reconhecer que existe uma diferença entre não controlar o resultado e renunciar voluntariamente à possibilidade de participar de sua construção.
A maturidade também envolve aceitar que nossas ações possuem limites. Não podemos garantir que as pessoas concordarão conosco, que nossos esforços serão reconhecidos ou que todos os objetivos serão alcançados. Ainda assim, podemos decidir se vamos agir de acordo com nossas convicções, se procuraremos compreender melhor a realidade e se assumiremos a parcela de responsabilidade que nos pertence. A consciência dos limites não precisa produzir paralisia. Pelo contrário, pode nos ajudar a direcionar nossa energia para aquilo que realmente podemos fazer.
Neste domingo, não vote para corresponder às expectativas de familiares, amigos ou colegas. Não escolha alguém apenas porque outra pessoa afirmou que essa seria a melhor opção. Procure informações, compare propostas e reflita sobre os valores que considera importantes. O voto deve resultar de uma decisão pessoal, construída com responsabilidade e liberdade de pensamento. Se surgir novamente a ideia de que sua escolha não fará diferença, procure examinar o que essa afirmação realmente significa. Ela quer dizer que você não controla sozinho o resultado ou que sua contribuição não possui absolutamente nenhum valor?
Essas duas interpretações não são equivalentes. Você pode não ter poder para decidir tudo e, ainda assim, possuir condições de contribuir para alguma coisa. Não precisa assumir sozinho o peso das decisões nacionais para reconhecer a importância de participar delas. A responsabilidade individual não exige onipotência. Exige apenas que cada pessoa considere com seriedade aquilo que está ao seu alcance.
No fim, talvez essa discussão seja menos sobre eleições do que imaginamos. Ela também trata da maneira como nos relacionamos com nossa capacidade de agir. Quando reconhecemos que nossas atitudes podem contribuir para resultados maiores, mesmo sem garanti-los, encontramos razões para continuar tentando. Quando concluímos que nenhuma iniciativa vale a pena, podemos nos afastar progressivamente de espaços nos quais ainda teríamos condições de colaborar. Por isso, vale refletir: quantas oportunidades você deixou passar porque acreditou que sua contribuição seria pequena demais? Talvez recuperar a disposição para participar comece justamente quando entendemos que não precisamos transformar tudo para fazer alguma coisa que tenha valor.
José Roberto Marques é autor de mais de 132 livros, cientista, pesquisador e especialista em comportamento e desenvolvimento humano, fundador do Grupo IBC Educação. Sua trajetória inclui atuação em educação, formação de profissionais, produção de conteúdo e projetos de impacto social, com mais de 6 milhões de pessoas impactadas.
FAQ – Perguntas Frequentes
O que leva algumas pessoas a pensar que votar não faz diferença?
Uma das explicações possíveis é a baixa percepção de eficácia política, ou seja, a crença de que a participação individual pouco interfere nas decisões coletivas. No entanto, a ausência eleitoral pode estar relacionada a diversos fatores, incluindo circunstâncias pessoais, e não deve ser explicada exclusivamente por essa percepção.
O que significa eficácia política percebida?
É a percepção que uma pessoa tem sobre a possibilidade de sua participação contribuir para o processo político. Isso não significa acreditar que um único cidadão pode definir uma eleição, mas compreender que sua escolha integra a formação de decisões coletivas.
O voto de uma única pessoa tem importância?
Um voto isolado não determina necessariamente o resultado de uma eleição. Contudo, o resultado coletivo é formado pelas escolhas individuais, e o voto permite que cada cidadão participe desse processo democrático.
Quem deixou de votar no primeiro turno pode comparecer ao segundo?
Sim. A Justiça Eleitoral considera os dois turnos eleições independentes. Dessa forma, quem faltou à primeira votação pode participar da segunda, desde que mantenha sua situação eleitoral regular.
Quantos eleitores faltaram no primeiro turno de 2026?
Aproximadamente 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas, o que representou 21,08% do eleitorado.

