A memória é um dos aspectos mais curiosos da mente humana. Por que nos lembramos vividamente de alguns fatos, mas nos esquecemos de outros? Será que aquilo que lembramos é exatamente o que de fato ocorreu? É possível exercitar essa habilidade mental de alguma maneira? É possível criar memórias que nunca de fato ocorreram?

São muitas as indagações acerca do tema e, por isso, a BBC entrevistou o professor de psicologia cognitiva da City University of London, no Reino Unido, Martin Conway, que é também o diretor do Centro de Memória e Direito dessa mesma universidade. Dedicando mais de 40 anos de pesquisa ao tema, ele esclarece as maiores curiosidades sobre o tema. Quer saber mais? Então, continue a leitura a seguir!

O que são memórias?

Segundo Conway, as memórias não são recordações literais dos fatos, já que a mente humana não consegue registrar perfeitamente tudo o que ocorreu. Trata-se de uma representação mental daquilo que foi mais significativo para nós acerca de uma ocorrência do passado, o que pode ter erros.

Por exemplo, você pode se lembrar de uma festa de que participou no mês passado, mas provavelmente não vai se lembrar de todos os que estavam presentes, das roupas que as pessoas usavam ou de tudo o que comeu na ocasião. A mente é seletiva, de modo que a memória é apenas a lembrança do que for mais significativo, mas não é exatamente precisa. Essas recordações mentais não são fotografias ou vídeos, mas imagens selecionadas.

Podemos ter memórias com erros?

Sim. O especialista afirma que entre o que a nossa mente produz como recordação e o que de fato ocorreu pode haver discrepâncias. Isso se deve ao fato de que algumas informações aparecem incompletas na nossa mente, especialmente os detalhes. As memórias são construções mentais que têm a função de recordar o passado imediato, mas também de nos reforçar enquanto indivíduos, ou seja, de definir quem nós somos.

As chamadas memórias autobiográficas são as recordações mais longínquas, que trazemos de meses, anos e até décadas passadas. Elas nos ajudam a compreender quem nós somos, com base nos nossos pensamentos, sentimentos, escolhas e comportamentos. Contudo, nem sempre essas memórias são precisas. Acabamos construindo recordações que aumentam alguns fatos e que omitem outros, o que é normal, segundo o professor. O importante é que esse processo seja consistente com a imagem que você constrói de si mesmo.

As memórias mudam?

De acordo com Conway, as memórias definem as percepções que temos da vida, mas também é a construção da vida que define as nossas lembranças. No entanto, por mais que as memórias não sejam 100% precisas, não podemos afirmar que elas estejam sempre mudando. Há um mínimo de consistência nas nossas lembranças, de modo que as percepções que podem mudar são mais referentes aos detalhes.

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Por exemplo, uma pessoa saudável dificilmente vai se esquecer dos locais em que já trabalhou, mas os detalhes de cada emprego poderão ser lembrados com algumas diferenças — os colegas que ali estavam, a posição dos departamentos, o tipo de cadeiras etc. As nossas memórias são estáveis e consistentes, sendo que o que pode não ser preciso são os detalhes ou informações de menor importância.

Somos capazes de criar lembranças falsas?

Segundo Conway, a memória e a imaginação são dois processos que ocorrem nas mesmas redes neurológicas cerebrais. Por isso, podemos criar lembranças falsas, mas elas não surgem “do zero”. Por exemplo, você pode ter uma lembrança de uma casa em que morou na infância, mas essa lembrança ser baseada no relato dos seus pais, e não na sua recordação propriamente dita. Ainda na infância, você pode também ter imaginado algo acontecendo e, hoje em dia, ter essa recordação como se de fato tivesse acontecido.

Por isso, podemos construir memórias que não aconteceram de fato, mas que apresentam alguma ligação e alguma coerência com a narrativa das nossas vidas. Como lembrar e imaginar são atividades que ocorrem no mesmo lugar do cérebro, essa criação de lembranças falsas pode ocorrer.

Por que nos lembramos de algumas coisas, mas nos esquecemos de outras?

Você se lembra do que tomou no café da manhã do dia 1º deste mês? Provavelmente, a resposta será negativa, a não ser que o dia 1º tenha sido hoje ou ontem. O caso é que essas memórias de curto prazo são úteis para que as pessoas se localizem no tempo/espaço, mas acabam sendo movidas para o inconsciente. Isso quer dizer que elas continuam ali em algum lugar da mente, mas ficam inacessíveis depois de algum tempo.

Contudo, você pode se lembrar perfeitamente do café da manhã do hotel em que ficou hospedado nas suas últimas férias. Por que isso acontece? Segundo Conway, isso ocorre porque a função de retenção se intensifica em momentos de grande relevância para você. Fatos mais importantes, especiais ou que despertam sensações intensas tendem a ser mais lembrados do que o que é trivial. O que estiver associado aos seus objetivos, desejos e preocupações, portanto, tende a ser mais lembrado do que coisas entediantes do dia a dia.

É possível exercitar a memória?

O especialista afirma que a memória não é um músculo que cresce conforme exercitamos. O que podemos fazer é estimular determinadas áreas cerebrais que podem facilitar essa habilidade, como o aprendizado de um instrumento musical ou de um novo idioma.

Contudo, o que o especialista afirma como realmente positivo para a memória é a socialização. Sair com os amigos, conversar com os familiares e interagir com os colegas de trabalho são atividades que geram aprendizados sobre ideias, sobre acontecimentos, sobre as outras pessoas e sobre si próprio. Esse aprendizado contínuo, gerado na vida social, causa menos declínio cognitivo e, consequentemente, ameniza o comprometimento da memória.

Dessa forma, a memória é uma representação mental mais ou menos fiel do que ocorreu. Em alguns casos, ela pode ser alterada de acordo com o que foi mais significante para a nossa percepção subjetiva. Inclusive, podemos criar memórias falsas, baseadas na nossa imaginação ou no relato de outras pessoas. Trata-se de uma poderosa ferramenta humana, útil para a definição de quem somos e para a nossa localização no tempo/espaço, ainda que não seja 100% precisa.

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