Dividir a vida em fases é um processo bastante complexo. A experiência humana é muito individual e subjetiva, de modo que nem sempre as etapas vivenciadas por uma pessoa coincidem cronologicamente com as vivências de outra.

Ainda assim, podemos reconhecer, mesmo em meio às diferenças entre as pessoas, algumas vivências em comum, o que se nota no amadurecimento físico, no desenvolvimento emocional e na aquisição de aprendizados e conhecimentos diversos.

É ao observar o desenvolvimento humano com o passar do tempo que surgem teorias do tipo, sendo a mais famosa a “Teoria dos Setênios”, de Rudolf Steiner. Neste artigo, vamos compreender melhor a estrutura e os aprendizados que podem ser extraídos desse trabalho tão importante. Continue a leitura e saiba mais!

A Teoria dos Setênios, de Rudolf Steiner

Teoria dos Setênios foi criada a partir da observação da natureza no sentido da vida, na qual todas as pessoas do mundo estão inseridas. Essa teoria faz a divisão da vida em fases de 7 anos (setênios). Para falar sobre essa teoria, é preciso enfatizar que o número 7 é considerado um número místico, que apresenta bastante poder. Esse caráter místico do número está presente em várias culturas — 7 dias da semana, 7 notas musicais, 7 cores do arco-íris, 7 pecados capitais, 7 maravilhas do mundo.

Essa teoria é o que ajuda as pessoas a compreenderem a situação cíclica da vida, em que, a cada novo ciclo, são somados os conhecimentos que são conquistados no ciclo anterior, e assim sucessivamente, buscando sempre um novo desafio. A ideia é entender que cada etapa tem as suas dores e as suas alegrias, contrariando a tese de que haveria uma idade só de aspectos positivos e outra só de aspectos negativos.

A teoria foi concebida pelo filósofo e cientista austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), propondo uma maneira livre e natural de pensar na existência humana. Segundo Steiner, a vida das pessoas pode ser dividida em 10 fases, sendo estabelecidas a cada 7 anos. A primeira acontece de 0 a 7 anos de idade.

PSC Renascimento

A cada fase nova, um novo ciclo também começa, com mudanças em muitos aspectos na vida de cada um. Isso foi embasado na medicina tradicional chinesa e na Antroposofia — dos gregos —, na qual a medicina antroposófica tem o seu embasamento.

Tanto os chineses quanto os gregos observaram, primeiro, as mudanças biológicas e espirituais que aconteciam de 7 em 7 anos na vida das pessoas, e é por isso que as fases são nomeadas setênios. Se uma pessoa respeitar o ritmo de cada setênio, ela chegará ao décimo, ou seja, aos 70 anos de idade, com bastante sabedoria e consciência — também tendo boa saúde, além de vivenciar o amor sem cobranças e ajudar os outros sem indagar.

Logo, o objetivo central do setênios é alertar as pessoas sobre as fases que existem, de modo que elas tenham conhecimento das mudanças e as desfrutem de maneira saudável. Como a vida é passageira, a melhor e única saída é prezar para que as pessoas fiquem atentas, que vigiem a si mesmas e que decidam responder aos vários incentivos diários, mantendo uma vida com saúde, mesmo em constante mudança.

Mergulhando nos setênios

Dentro da teoria de Steiner, o autor explica que há um amadurecimento biológico que corresponde aos 3 primeiros setênios (até os 21 anos). Em seguida, há um amadurecimento psicológico nos 3 setênios seguintes (dos 21 aos 42 anos). Por fim, há um amadurecimento espiritual nos últimos setênios (após os 42 anos).

Amadurecimento Biológico

Aprender. Educação receptiva. Amadurecimento físico.

1º setênio: 0 a 7 anos — o ninho

O primeiro setênio corresponde aos anos iniciais da vida, cujo objetivo é desenvolver o corpo e a mente. Assim, a criança precisa compreender o mundo em que está inserida e conhecer o próprio corpo para identificar as suas possibilidades e limitações. Nessa fase, ela aprende por experimentação, mas também por observação e imitação dos adultos ao seu redor.

Ainda não é uma fase de raciocínio lógico desenvolvido, mas de arriscar-se e conhecer a vida como ela é, adequando-se ao meio. Segundo Steiner, trata-se de uma fase particularmente importante para a formação moral da criança, necessitando de pessoas que a eduquem e que com ela compartilhem determinados valores éticos para nortear o seu comportamento, no presente e no futuro.

Esse primeiro setênio inclui a gestação, o nascimento, a nutrição e o crescimento. Ainda no ventre materno, um indivíduo é concebido, formado por corpo, mente e espírito. A hereditariedade se faz muito presente nesse momento, pois é possível perceber com alguma clareza quais são os traços físicos e psicológicos que o pequeno herdou do pai, da mãe e até mesmo de gerações anteriores.

Por falar nisso, essa é a fase em que mais estamos imersos na vida em família, pois é dentro dela, especialmente no colo dos pais, que recebemos amor, afeto e instrução para compreender como a vida funciona. Aos poucos, porém, a criança consegue adquirir autonomia, compreendendo que, colocando em prática os ensinamentos recebidos, ela mesma pode fazer algumas coisas por conta própria.

Por isso, esse setênio deve ser entendido como uma instrução inicial sobre a vida, mas os adultos também devem permitir que a criança faça as suas próprias descobertas, inclusive entendendo conceitos como o “eu”, o “outro” e o “mundo”. É o momento de andar, correr, brincar, falar, perguntar, testar limites e desenvolver visões de mundo.

Esse é aquele clássico momento em que “tudo é novo”. É um espírito recém-chegado que precisa entender como a vida funciona e como ele pode ser feliz, adaptando-se ao mundo, mas sem perder a sua autonomia e a sua personalidade própria. Nesse sentido cabe aos adultos dar toda a assistência e orientação necessárias, mas sem superproteger ou obrigar o pequeno a seguir determinados passos.

2º setênio: 7 a 14 anos — o pertencimento

No segundo setênio, o desenvolvimento físico da infância é consolidado. O indivíduo ainda apresenta fragilidades, mas não é tão dependente dos mais velhos para questões básicas, como alimentação, vestuário, higiene, e por aí vai.

As trocas entre o “eu” e o “mundo” ficam mais intensas. Ao contrário do bebê recém-nascido, que recebe muito mais do que dá, a criança consegue receber e dar muitas coisas no mundo em que vive: ouve, mas também fala; responde, mas também pergunta; sofre ações dos outros, mas também age em relação a eles. Torna-se efetivamente uma presença mais nítida no mundo. Normas são entendidas, hábitos são absorvidos, exemplos são seguidos, teorias são postas em prática.

Nessa fase, a criança já tem uma noção mais clara do mundo e, aos poucos, percebe que ele não é igual para todos. Ela identifica que há diferenças entre os indivíduos, mas precisa ser educada no sentido de que todos devem ser tratados com respeito. É o momento de compreender que há regras que precisam ser seguidas e obrigações a serem cumpridas. Noções de direitos e deveres começam a ser compreendidas em mais profundidade.

A criança também começa a compreender o sentido da arte, da cultura, da espiritualidade e do estudo. Assim, além de conceitos concretos, ela também desenvolve o raciocínio para itens mais abstratos. O fim da infância e o início da adolescência são marcados por uma complexidade natural, em que as coisas não são tão absolutas, em termos de “certo” e “errado”, como na infância. Tudo passa a ser questionado.

Nesse segundo setênio, a vida em família continua importante, mas a criança passa a fazer parte também de outros grupos sociais, como os vizinhos, a religião, a escola e os círculos de amizades. Em todos esses ambientes, há uma percepção de que existem regras e autoridades que precisam ser obedecidas. Tudo é uma questão de percepção, trocas, confiança, equilíbrio, harmonia, limites, e por aí vai.

Essa etapa juvenil é marcada também pela consolidação dos 5 sentidos (tato, paladar, visão, olfato e audição), pelo desenvolvimento estético, pela percepção das diferenças entre os gêneros e por alguma compreensão do aspecto emocional. É um momento importante para compreender que ações têm consequências, mas sem reprimir a criança, pois ela precisa reconhecer e desenvolver a própria identidade — sendo ela mesma sem sentir-se frágil quando exposta ao mundo.

3º setênio: 14 a 21 anos — a identidade

A fase compreendida entre os 14 e os 21 anos de idade corresponde ao terceiro setênio. Esse período coincide com a adolescência e com a entrada na vida adulta. Para alguns, pode ser entendido como uma primeira “crise de identidade”, levando em consideração as características e naturais mudanças físicas e psicológicas desse período.

Trata-se de um momento cheio de modificações no corpo e na mente, que refletem o amadurecimento. Essas mudanças despertam uma vontade de ter mais liberdade e autonomia de pensamento. Nessa fase, o jovem começa a caminhar por conta própria para encontrar o seu lugar no mundo e a sua identidade, diminuindo a dependência da família.

Nesse período, os estudos normalmente se intensificam, avançando aos anos finais da escola e gerando escolhas vocacionais, que culminam com o ensino superior e/ou com o ingresso em algum tipo de ocupação. Pela primeira vez, o indivíduo se vê como profissional em algo e como responsável pelo próprio sustento. É um momento de transformações mais intensas, em que a liberdade do amadurecimento tem como contraponto o peso das responsabilidades cada vez maiores.

Do ponto de vista físico, transformações nítidas ocorrem nos corpos de homens e mulheres, significando que estão no processo de tornarem-se aptos a gerarem novas vidas. Ao mesmo tempo, o indivíduo também se posiciona, cada vez mais, em sociedade, ocupando o seu lugar no mundo.

Essa fase é caracterizada por um momento de autoafirmação. O adolescente ou jovem adulto quer mostrar a sua força e a sua identidade, demonstrando os seus valores, gostos, preferências, paixões, objetivos e ideais. Muitas vezes, esses elementos vão de encontro aos valores dos pais ou responsáveis, o que pode fazer com que o jovem seja visto como rebelde.

A verdade é que ele ainda está tentando encontrar a própria voz e entender quem de fato é. São muitas dúvidas e sentimentos nem sempre claros. Em meio a essa “revolução” de ideias e emoções, o indivíduo ainda se depara com uma das maiores necessidades — e inseguranças — humanas: a de aceitação e pertencimento a um grupo.

Esse setênio corresponde a um período de muita energia, mas que as pessoas ainda não sabem ao certo como canalizá-la para algo produtivo. Ingressando na vida adulta, querem experimentar coisas novas e, por vezes, necessitam novamente da orientação dos mais velhos para que não se percam. Mais uma vez, o diálogo, a abertura ao novo e a compreensão se fazem necessários para que saibamos como passar por esse período.

Amadurecimento Psicológico

Lutar. Autoafirmação. Autoeducação. Desenvolvimento psíquico.

4º setênio: 21 a 28 anos — o “eu”

O período compreendido entre os 21 e os 28 anos representa a juventude. Nesse caso, o indivíduo não é mais um adolescente, mas uma pessoa que já passou pelas transformações típicas dessa fase, tornando-se um jovem adulto. É um momento de mais responsabilidades, produtividade, conhecimento, energia e construção do futuro.

Se a fase anterior desperta a necessidade de encontrar uma identidade, a fase atual a consolida. Na juventude, formamos o “eu”, mas compreendemos que as pessoas também são influenciadas umas pelas outras. Por isso, o grande desafio é saber viver em sociedade, mas sem que a pessoa deixe de ser ela mesma. A autenticidade é o que nos torna felizes.

É um período de vivenciar o mundo intensamente, mas com mais responsabilidades do que na adolescência. É um período de buscar o próprio lugar e de experimentar diferentes sensações.

A partir desse setênio, as pessoas percebem com mais clareza que são realmente diferentes umas das outras. É nessa idade que percebemos que os planos que fazem sentido para alguns não fazem sentido para outros. Até o setênio anterior, todos seguem “mais ou menos” os mesmos caminhos, mas, agora, muitas ramificações diferentes se abrem.

Com tantas trajetórias distintas a serem percorridas na vida adulta, novas dúvidas surgem: será que eu escolhi a profissão certa? Será que o meu namoro tem futuro? Está na hora de ter filhos? O casamento é importante para mim? Será que eu serei capaz de conciliar trabalho, família, amigos, espiritualidade e descanso? Vou conseguir me sustentar financeiramente?

Nesse setênio, o indivíduo, que antes recorria com muita frequência aos pais, descobre que a maioria das respostas está, na verdade, dentro de si — embora nada o impeça de recorrer à família diante de dúvidas e inseguranças. Muitas vezes, o jovem se encontra na posição de que, ao dizer “não” para aquilo que não quer, enfim descobre aquilo que realmente deseja alcançar.

Por outro lado, a pessoa já não se vê tão frágil como na adolescência. Percebe que consegue viver com relativa autonomia, muitas vezes saindo da casa dos pais, trocando de amizades, mudando de profissões, enfim, planejando um futuro mais compatível com quem realmente é. Acredita estar mais amadurecida do que na adolescência — quando muitas dessas escolhas já haviam sido feitas.

Alguns especialistas pontuam que esse início da idade adulta pode ser bastante emotivo e marcado por instabilidades, em que as pessoas experimentam muitas coisas diferentes, vivenciam arrependimentos e tentam novos caminhos. Experimentam uma ansiedade intensa por estabilidade pessoal e profissional, para ter bons resultados rapidamente. A pressão da sociedade intensifica essa instabilidade.

5º setênio: 28 a 35 anos — as crises existenciais

No 5º setênio, as crises existenciais dão o tom dessa fase, que marca a consolidação da independência e da idade adulta. É uma etapa em que questionamos se as decisões tomadas nos períodos anteriores de fato fazem sentido. Estamos estagnados? Estamos alcançando os nossos objetivos? Precisamos recalcular as rotas? É tempo de reflexão.

É comum que as preocupações com o tempo surjam ou se intensifiquem nesse período. O relógio biológico reforça a ansiedade já citada. Será que estamos “dentro do tempo”? Será que já era para eu ter a minha casa própria? Será que ainda dá tempo de ter filhos? É muito tarde para casar? É muito cedo para se divorciar? Será que já era para eu ter ganhado mais dinheiro?

Por outro lado, é também um momento de mais maturidade e racionalidade. Por mais que as dúvidas continuem existindo, o indivíduo percebe que é dono da própria vida e que não está mais tão dependente de outras instituições, como a família.

Quem sou eu? O que eu já vivi? Para onde estou indo? Essas são as perguntas mais comuns de quem está nessa fase tão simbólica — “ainda tenho muito a viver, mas já vivi algumas experiências de vida importantes”. Nessa fase, ocorre também uma descoberta importantíssima: percebemos que muitas das crenças que tomávamos como verdades absolutas são substituídas por novas crenças, mais compatíveis com quem somos. Valores, empregos, ideologias — percebemos que nada é definitivo.

Esse amadurecimento psicológico nos liberta um pouco dessa necessidade de se definir, de se autoafirmar e de se “encaixar” em determinados grupos ou padrões — características tão comuns dos setênios anteriores. Aqui, ocorre um movimento inverso: de entender que não somos “definidos”, mas seres em constantes mudanças, organizações, reorganizações, reavaliações, e por aí vai.

A ansiedade continua existindo, mas talvez com menos pressão, o que leva o indivíduo adulto a lidar melhor com esse sentimento. Além disso, por mais que ele continue correndo alguns riscos e experimentando o mundo, ele o faz com mais serenidade e racionalidade, pensando mais antes de agir e evitando comportamentos impulsivos.

O que é justo? O que é correto? O que é digno? O que é saudável para mim? São questionamentos de quem, enfim, alcança essa fase mais moderada, mas altamente produtiva das nossas vidas. Entendemos que não precisamos nos cobrar tanto ou lutar tanto para nos adaptarmos ao mundo.

6º setênio: 35 a 42 anos — as crises de autenticidade

Nessa fase, teoricamente, já construímos as bases da vida, como os relacionamentos, os filhos, a moradia, a carreira, a independência e algum progresso financeiro. Nessa etapa, também podemos perceber que há outras pessoas que dependem de nós. Devemos fazer o possível para ajudá-las, mas sem que nos esqueçamos de nós mesmos.

Também conhecido como “fase consciente”, esse setênio geralmente é caracterizado por uma vida intensa nos diferentes papéis que assumimos: na liderança das famílias, na vida profissional, nas nossas amizades, entre outros. Em todos esses papéis, existe uma tendência para que sejamos mais produtivos, mas não podemos nos esquecer de que cada área da vida precisa estar conectada com as demais, sendo que essa conexão consiste justamente nos nossos próprios valores.

Se, em tese, a família, o trabalho e o patrimônio estão mais estabilizados, tentamos dar mais sentido à vida, refletindo sobre os nossos valores pessoais e sobre a construção de um legado, ou seja, da marca que pretendemos deixar no mundo, especialmente aos nossos sucessores.

Assim, é comum que quem vivencia esse setênio passe a aprender algumas coisas por prazer, desenvolva alguns hobbies e procure viver com mais bem-estar, talvez com menos daquela “correria” dos setênios anteriores. Prazer e felicidade tornam-se conceitos mais explorados nesse período. Por mais que a expectativa de vida da época de Steiner tenha aumentado bastante, esse setênio inicia a busca por uma vida de mais tranquilidade.

Aqui, adentramos um estágio de maturidade psíquica e emocional, o que nos permite fazer questionamentos mais profundos: estando na metade da vida, será que eu já entendi a minha missão e o meu propósito? Será que as minhas ações até aqui são condizentes com esse propósito? Quais são os meus valores espirituais? Como posso transcender a minha essência para o mundo, sob a forma de um legado?

Com a vida pessoal e profissional em estabilidade, é relativamente frequente que as pessoas fortaleçam-se um pouco mais no que diz respeito à área espiritual. Tornamo-nos mais reflexivos, pensativos e propensos a encontrar significados mais profundos na vida.

Por outro lado, também pode haver algum descontentamento com essa ideia de tranquilidade, o que leva o indivíduo a querer manter-se mais ativo: que coisas novas eu posso fazer? Agora que tenho mais tempo, quais são as minhas vontades da juventude que eu ainda não realizei? Esse setênio “dança” sobre esse equilíbrio delicado entre aceitar quem somos, mas também descobrir novas versões de nós mesmos.

Amadurecimento Espiritual

Tornar-se sábio. Autodesenvolvimento. Maturidade espiritual.

7º setênio: 42 a 49 anos — o altruísmo

Após a consolidação dos setênios anteriores nas diferentes áreas da vida, o 7º setênio marca o início de uma fase de amadurecimento espiritual. Trata-se do ápice da maturidade, em que já acumulamos uma quantidade razoável de vitórias, derrotas e aprendizados.

Nesse momento, as dificuldades da vida já não pesam tanto, e conseguimos enfrentar as crises com mais facilidade. É como se uma “segunda adolescência” tivesse início, em que finalmente conseguimos realizar antigos sonhos. O avanço da idade pode começar a assustar um pouco. Também podemos aproveitar esse período para o altruísmo, ou seja, para ajudar aqueles que precisam da nossa sabedoria e experiência.

Esse é um período naturalmente mais imaginativo, em que procuramos viver conforme as nossas próprias convicções. Conseguimos identificar com mais clareza, por exemplo, o que realmente gostamos de fazer e o que fazemos apenas por obrigação. Pode ser também um momento marcado por contradições, em que sabemos o que precisa ser feito, mas nos questionamos se, a tal altura do campeonato, isso ainda faz sentido.

Andropausa, menopausa, metabolismo mais lento, mudanças nas características físicas. Percebemos que a juventude realmente ficou para trás. Ver essas mudanças no espelho nos lembra da adolescência, mas, agora, em um contexto diferente. Em vez de viver a ansiedade pelo futuro, fazemos balanços do presente, verificando se ele é compatível com os planos que traçamos lá atrás ou se ainda temos muito o que fazer.

Aceitamos a vida como é. A crise dos 30 perde força, mas continuamos com uma vontade intensa de viver, de fazer coisas novas, de manter a sensação de utilidade e de aproveitamento do tempo disponível. As questões existenciais e alguma melancolia surgem ao perceber que há um processo de envelhecimento tendo início.

Assim, ao mesmo tempo em que queremos mudanças e um melhor aproveitamento da vida, o fato de envelhecer começa a assustar, pois percebemos que o corpo e a mente não serão os mesmos pelos próximos anos. Isso pode levar alguns indivíduos a mudanças bruscas de valores e comportamentos, tanto com relação a si mesmos quanto com relação ao outro e ao mundo.

Questões de princípios, de qualidade de vida, de estética e até mesmo de sexualidade tornam-se mais importantes. É necessário entender que o aspecto físico e mental está entrando em um novo momento da vida, mas que isso não necessariamente é um fim, apenas um recomeço diferente.

8º setênio: 49 a 56 anos — a compreensão do mundo

A partir dessa fase, o ritmo de vida começa a desacelerar, pois o indivíduo já sabe quem ele é, já compreende o seu lugar no mundo e já entende como a sociedade funciona. É um momento naturalmente mais introspectivo e reflexivo, em que focamos nos valores éticos e morais que cultivamos. 

É nessa fase que as pessoas se aposentam ou planejam esse momento, o que deve ser feito com muito cuidado, a fim de que ninguém se sinta inútil ou incapaz. Se há mais tempo livre, cabe ao indivíduo compreender como vai empregá-lo futuramente. Deixar de exercer uma função profissional não significa necessariamente ficar “de papo pro ar”, mas sim encontrar outros meios de ocupar-se.

Além de ficarem mais atentas às suas próprias trajetórias, as pessoas que alcançam esse setênio também avaliam o quanto o próprio mundo mudou desde que eram crianças. Valores, costumes e crenças que antes pareciam indispensáveis foram substituídos por outras formas de viver. Nesse sentido, vale desenvolver um senso crítico, entendendo que cada era tem os seus pontos positivos e os seus desafios, sem necessariamente cultivar um saudosismo de que tudo era melhor “na minha época”.

É comum que as pessoas mais espiritualizadas se fortaleçam nesse aspecto ao longo dessa fase, inclusive potencializando iniciativas altruístas, conforme citado no setênio anterior. Tornam-se mais disponíveis para ajudar os outros, sobretudo os mais jovens. Alguns também podem se tornar mais criativos e apoiar diferentes causas em prol de um mundo melhor.

As pessoas também percebem que a sua vitalidade, ou seja, a sua energia para o dia a dia cai um pouco mais. O ritmo fica um pouco mais lento no cotidiano, o que favorece uma postura mais reflexiva. Avaliam a própria história sem julgamentos, abandonando o individualismo e focando mais no que é universal e existencial.

Entretanto, nem todos conseguem agir dessa forma desapegada. Esse nível de espiritualidade depende consideravelmente de como as pessoas agiram nos setênios anteriores. Assim, se alguém foi mais egocêntrico no passado, essa característica também pode ficar mais intensa nesse 8º setênio.

Do ponto de vista físico, esse setênio espelha o período dos 7 aos 14 anos, pois ficamos naturalmente mais frágeis e até mesmo mais dependentes uns dos outros.

9º setênio: 56 a 63 anos — a sabedoria

Nessa fase, a teoria dos setênios avança, pois, segundo os especialistas, grandes mudanças físicas e mentais ocorrem aos 56 anos, dando início à “terceira idade”. É um momento em que acumulamos inteligência racional e emocional, devendo compartilhá-la com os mais jovens. É tempo de aproveitar a vida sem tanta cobrança, mas também sem deixar de estimular os sentidos, como a memória.

Essa etapa é também conhecida como “mística” ou “intuitiva”. Preocupações com o corpo, com a saúde, com a realização pessoal e com a aposentadoria ficam mais evidentes nesse período. O indivíduo pode ficar mais introspectivo, mas, ao mesmo tempo, avalia se a forma como se relaciona com o mundo na atualidade é a mesma com a qual isso ocorria anos atrás — ou se houve mudanças.

A comunicação com o mundo externo pode ter ruídos, considerando as limitações físicas e mentais da terceira idade e, em muitos casos, a dificuldade dos mais velhos de se adaptarem ao “universo” dos mais jovens. A esse respeito, é importante considerar que, quando essa teoria foi desenvolvida, passar dos 60 anos já significava estar em uma idade avançada, o que talvez não faça tanto sentido hoje em dia.

Ainda assim, é fato que as pessoas que alcançam essa faixa etária, principalmente após a aposentadoria, ficam mais emotivas ou introspectivas, ponderando se a sua vida transcorreu de acordo com os seus planos e sobre o que ainda pode ser feito. É um momento de reclusão e autorreflexão.

Esses questionamentos podem levar as pessoas, sobretudo as mais pessimistas, a uma ideia de fracasso e de insatisfação, como se a vida não tivesse sido aquilo que elas planejaram. No entanto, a sabedoria, o conhecimento acumulado e até mesmo a intuição tornam-se forças que fazem o contraponto a esse pessimismo. Colocando na balança os aprendizados e o que não foi possível alcançar, podemos obter um saldo positivo.

Nesse momento, é comum que os indivíduos passem a maior parte da vida contando e recontando as suas próprias histórias, mas não podemos deixar que eles acreditem que não há mais nada a fazer. É preciso manter a mente e o corpo ativos, respeitando os limites de cada um, para envelhecer da melhor maneira possível.

10º setênio: 63 a 70 anos — o autoconhecimento

Por fim, o último setênio é considerado uma fase mística, de alma intuitiva, em que “voltamos a ser crianças”. O corpo pode necessitar de cuidados especiais de outras pessoas. No entanto, a diferença é que, nesse último setênio, o indivíduo tem o máximo de experiência e conhecimento para compartilhar.

Alguns textos contemplam apenas os 9 setênios anteriores, enquanto outros incluem este 10º. É claro que muitas pessoas vão certamente passar dos 70 anos de idade, o que significa que a teoria dos setênios não é um modelo matemático, mas uma ideia de que a vida é cíclica e que mudanças significativas ocorrem nas nossas vidas em períodos de aproximadamente 7 anos.

O fato é que é natural que as pessoas mais velhas acumulem fragilidades físicas, mas que, ao mesmo tempo, reúnam sabedoria, conhecimentos, intuições e vivências. Por isso, é comum que queiram compartilhar essas vivências com aqueles que estejam nos setênios anteriores, afinal de contas, essa é uma das maiores belezas da vida: podemos aprender uns com os outros, sobretudo com os que têm mais experiência do que nós.

Por mais que o passado seja extenso, porém, os que vivenciam esse setênio também precisam pensar em meios de viver com qualidade agora, mesmo com as restrições características da idade. Manter o corpo e a mente ativos é fundamental para que possamos prolongar a nossa existência ao máximo possível, tentando reduzir a nossa dependência de terceiros e procurando ser felizes.

A idade avançada nos leva naturalmente a avaliar a vida que levamos. É claro que haverá arrependimentos, mas também haverá pontos positivos que merecem ser celebrados. Ter altos e baixos não nos faz piores do que ninguém. Isso apenas nos faz humanos, uma vez que, como a própria teoria dos setênios nos mostra, cada época da vida tem as suas dores e alegrias.

A relação entre os setênios e o autoconhecimento

O autoconhecimento é o conhecimento que um indivíduo detém acerca de si mesmo. Isso inclui: talentos, interesses, conhecimentos, aptidões, valores pessoais, sonhos, objetivos, crenças, espiritualidade, vocação profissional, traços de personalidade, forças pessoais, pontos que ainda precisam de mais desenvolvimento, e por aí vai.

A diferença entre o autoconhecimento e o conhecimento sobre outros assuntos é que o primeiro não se aprende em um curso ou livro. Conhecer a si mesmo depende de ficar atento a nós mesmos, ou seja, aos nossos pensamentos, crenças, atitudes e emoções diante das diferentes circunstâncias que a vida nos apresenta.

Por isso, não há limites para o autoconhecimento. A cada experiência de vida, somamos algo novo a essa fonte do saber que somos nós mesmos. Ele não tem fim, durando desde o primeiro ao último segundo das nossas vidas. Essa ideia vai completamente ao encontro da teoria dos setênios.

Essa teoria nos evidencia que, nas diferentes fases da vida, adotamos comportamentos específicos, como é natural da evolução da nossa espécie e do estilo de vida contemporâneo. No entanto, ela deixa aberta a noção de que, por mais que as características de cada setênio possam ser comuns a todos, cada indivíduo vivencia essas etapas de uma maneira muito particular. É o caso de adolescentes que são muito rebeldes, enquanto outros passam por essa fase de forma mais tranquila.

O objetivo aqui não é pontuar que exista um meio “certo” ou um meio “errado” de evoluir ao longo de cada uma das fases acima descritas. O que realmente importa é que cada pessoa passe pela vida refletindo sobre a sua própria conduta. A autorreflexão é a base do autoconhecimento, pois uma pessoa que não analisa os próprios pensamentos e atitudes pouco ou nada saberá sobre si mesma.

Em contrapartida, aqueles que estão atentos às próprias crenças e comportamentos certamente serão capazes de identificar o que lhes faz bem e o que lhes mal; o que os aproxima dos seus objetivos e o que os afasta deles; o que gera bem-estar e o que causa arrependimentos. Em outras palavras, não existe “certo” e “errado”, mas existe o que faz sentido para você e o que não faz. É a isso que damos o nome de missão de vida ou propósito.

Conclusão

Como você deseja chegar aos seus últimos setênios? Com mais conhecimentos e aprendizados ou com mais arrependimentos e medos? Como podemos perceber, a diferença entre um cenário e o outro está exatamente no autoconhecimento. Você, enquanto ser humano, precisa aceitar a abraçar o fato de que errar faz parte da nossa natureza, desde que compreenda que o erro não é um resultado definitivo, mas um pequeno “ensaio” que antecede o acerto.

Por isso, arrisque-se, viva da melhor maneira que conseguir e extraia de cada fase da vida o que ela puder lhe oferecer de melhor — considerando que todas elas apresentam vantagens e desafios. Não há um jeito certo de viver ou uma etapa ideal da vida para ser feliz. O importante é trilhar o seu caminho dentro das suas convicções. Aproveite a jornada!

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